quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Autossuficiência Engenhosa

Gilberto Freyre, sociólogo brasileiro influenciado por Franz Boas, nascido no século XX, escreveu uma das obras mais icônicas da literatura brasileira onde são expostas ideias inovadoras sobre a formação  do Brasil em sua época colonial. Um dos aspectos abordados no livro Casa Grande e Senzala é a questão da autossuficiência da Casa Grande.

A obra expõe o patriarcalismo como forma de organização social brasileira, que era refletido na Casa Grande e nas suas relações com a Senzala, essa Casa Grande fazia parte de um engenho, que por sua vez era autogerido. O auto-funcionamento se dava através do trabalho, pelo sistema escravocrata; do modo de produção, pela monocultura latifundiária cafeeira ou açucareira; do transporte, pelas formas de locomoção da época, como o carro-de-boi; da higiene, pela detenção dos recursos relacionados à ela pela Casa Grande; pela política, por meio do compadrismo, e por fim, pela religião, com o catolicismo poligâmico. Dessa forma, Freyre equipara o engenho a um semifeudo, onde o Senhor de Engenho detinha grandes porções de terra, provindas das já não mais existentes sesmarias, e continha uma influência e poder político sobre as pessoas que no engenho estavam.
A própria arquitetura da Casa Grande e da Senzala perpetuava as relações sociais da época. O distanciamento desses dois blocos era a representação de um dualismo existente no sistema, contudo, Gilberto Freyre expõe e coloca o mestiço, produto de um homem branco com uma mulher negra ou índia escrava, como representação de um apaziguamento desse maniqueísmo. A consequência disso foi uma maior integração dos mestiços, negros e indígenas na Casa Grande.
A importância e impacto da obra de Freyre é, sem dúvidas, incontestável. Um livro coerente, onde são expostas diversas relações existentes no Brasil, que foram tratadas de uma forma inovadora. As relações postas entre a Casa Grande e a Senzala, não só em seu aspecto social e político, mas também físico, explicaram a forma de gestão do sistema patriarcal como forma de organização social e como ela moldou a "democracia racial".

Andréa Paradella de Oliveira e Vinicius Souza Fernandes são alunos do Bacharelado de Ciências e Humanidades da UFABC.

Atividade de Abdias

Prezada turma,
a atividade de Abdias foi corrigida com comentários no blog e há também um comentário final com uma avaliação geral.
Excelente = A (10.0), Muito bom = B (8.0). Bom = B (7.0) e Ok = C (6.0)


terça-feira, 15 de agosto de 2017

VISTAS DE PROVA

Prezados alunos,
as  vistas da prova será amanhã durante o período de aula (16/8) e depois das 10h às 12h no laboratório de Políticas Públicas (sala 13 / térreo do Bloco Delta).
A turma foi muito bem novamente, houve maior número de As do que de outras notas. 10 grupos ficaram com A, 9 com B, 4 com C e 1 com D.
Algumas análises me surpreenderam pela maturidade, originalidade e pela constituição da ponte com a atualidade.
Ainda não consegui passar as notas. Assim que o fizer divulgarei por aqui.
Att

O MESTIÇO SOB A ÓTICA DE GILBERTO FREYRE

Autor da obra “Casa-Grande e Senzala”, publicada em 1933, Gilberto Freyre foi um dos maiores intelectuais deste país. Neste clássico da sociologia, o autor faz uma leitura do homem brasileiro pouco explorada até aquele momento. Freyre faz um grande elogio à miscigenação, considerada por ele como uma das identidades do Brasil. Desta forma, reconhece a importância, não só do português, mas também do indígena e do negro no desenvolvimento cultural e racial do Brasil.

Em "Casa Grande e Senzala" nota-se que, para entender o processo de formação do povo brasileiro, é necessário entender as relações entre as etnias, isto é, a mestiçagem. Contra o discurso em voga naquela época, Freyre rejeita as afirmações que se baseiam na superioridade de uma raça sobre a outra. Também questiona a suposta fragilidade biológica e cultural resultante da miscigenação entre
brancos, indígenas e negros. O autor percebe que existe, na verdade, uma união estável entre estas três etnias, cujo resultado é o mestiço. Segundo Freyre, a mestiçagem não é uma criação americana, mas sim ibérica. Logo no início do primeiro capítulo, Freyre mostra que, o contato anterior dos portugueses com os mouros, gerou nesses colonizadores características particulares: os fizera mais adaptáveis em situações de interação com outros povos.

Essa miscigenação não foi apenas biológica, mas também cultural. Não foi somente a flexibilidade do português que favoreceu a interação entre as três etnias. Freyre também ressalta a relevância do negro e do indígena nesse processo. Aspectos como a linguagem, traços psicológicos (alegria, bondade, entre outros), alimentação e costumes dos negros foram absorvidos pelo branco europeu, que reconheceu a adaptabilidade dos africanos à situação tropical. Em relação ao indígena, o autor diz que este foi aproveitado no desbravamento de terras e propriedades, porém, dá maior destaque e importância à mulher, tanto na idealização para o amor, quanto no projeto de difusão econômica agrária. Para ele, todos esses elementos se incorporam em uma harmônica construção social.

Resumidamente, de acordo com Gilberto Freyre, a mestiçagem estabeleceu um aspecto democratizador nas relações étnicas no Brasil, corrigindo as distâncias sociais. Na época da publicação do livro, tal visão foi considerada inovadora, verdadeiramente revolucionária. Casa Grande e Senzala, além de dar ênfase a questões muito pleiteadas no país, ajudou-o a desprender-se de visões pessimistas e a inserir o negro no papel de sujeito formador do brasileiro, juntamente com o
português e o indígena. Portanto, a obra possui uma ampla importância historiográfica, ao passo que reinventou a maneira de compreender a sociedade colonial, possibilitou reflexões sobre diversas de suas construções e ofereceu um novo significado do mestiço para o brasileiro.

Gabrielle Antoniassi e Kamila Alves são discentes do Bacharelado de Ciências e Humanidades da UFABC.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Miscigenação e Democratização Social no Brasil

Abordaremos nesse texto a questão da miscigenação presente no prefácio de Casa grande e Senzala, e uma de suas principais consequências na visão de Freire, a democratização social no Brasil.
        O autor destaca que as relações entre os brancos conquistadores e as demais “raças” (negra e indígena) foram condicionadas desde o primeiro momento da colonização, por dois fatores. Por um lado pelo mundo trabalho baseado no sistema de produção escravista do latifúndio e da monocultura, e do outro lado no campo das relações sociais pela miscigenação, devido em grande parte pela escassez de mulheres brancas, um problema crônico na colônia. Os portugueses conquistadores do território devido a sua superioridade técnica e militar sobre as populações indígenas, também eram os dominadores e senhores absolutos sobre uma enorme massa de africanos negros importados e escravizados para trabalhar nas plantações e nas demais atividades produtivas da colônia.


        No entanto, devido à escassez de mulheres brancas, Freire identificou “a criação de uma zona de confraternização entre vencedores e vencidos”, um eufemismo para descrever “as relações sociais e genéticas” entre os brancos europeus e as mulheres negras e indígenas, as quais foram colocadas na condição de objetos de satisfação sexual dos homens brancos. Essas relações foram de poder e opressão dos homens sobre as mulheres consideradas de “raças inferiores”. No caso senhores “sádicos e desabusados” exploravam sexualmente escravas passivas. Porém, segundo Freire, algumas relações que se “adoçaram” devido à necessidade de muitos colonos constituírem famílias, se transformaram em relações oficiais e aceitas na sociedade, apesar de fundadas em uma base patriarcal e opressiva.

        Ainda segundo Freire a miscigenação ajudou a reduzir ou corrigir a distância que de outro modo se conservaria imensa entre a casa grande e a mata atlântica e entre a casa grande e a senzala. Logo, a mestiçagem contribuiu como um contraponto entre a “aristocratização” da sociedade, pois a estrutura monocultora escravocrata colocava num polo senhores e no outro os escravos, enquanto a miscigenação agiu em sentido oposto para aproximar socialmente esses extremos.
        Como consequência a conclusão a que Freire chegou foi que o resultado dessa miscigenação, filhos legítimos e ilegítimos, serviu para subdividir por meio das heranças parte considerável das grandes propriedades, quebrando assim a força dos latifúndios que concedidos através de sesmarias eram do tamanho de reinos, o que promoveu, ou ajudou a promover a democratização social no Brasil. Uma visão controversa e romântica tendo em vista a grande concentração de propriedade fundiária no país. Freire não se deu em conta que a grande massa de mestiços constitui hoje em dia a maior parte dos empobrecidos e despossuídos, um detalhe que passou despercebido em sua análise.

Luiz José Palhares de Souza Freitas é historiador (USP) e discente do Bacharelado de Ciências e Humanidades da UFABC.